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Quarteirão de Davi
Revista Veja . 28/07/2009
Frente a frente na Rua Venâncio Flores, no Leblon, convivem o novo centro de cultura hebraica, sob a liderança do rabino Nilton Bonder, e a Casa Lubavitch, de tradição ortodoxa do judaísmo
Midrash em hebraico significa "extrair sentido". A expressão foi escolhida pelo rabino Nilton Bonder para dar nome ao novíssimo centro de cultura e tradição judaica que será inaugurado no Leblon no dia 3 de agosto. Em um casarão de três andares e 450 metros quadrados, onde funcionou a academia de ginástica Yara Vaz, as portas se abrirão para cursos, exposições, pocket shows, debates e exibição de filmes. "É um espaço nos moldes de um Instituto Goethe ou de uma Aliança Francesa", exemplifica o religioso. "Vamos abordar como a tradição judaica dialoga com a cultura local e produz diferentes resultados." Na estreita Rua Venâncio Flores, o imóvel de três andares chama atenção pela fachada esculpida com caracteres hebraicos, uma criação do arquiteto paulista Isay Weinfeld, autor do projeto de reforma, cujas obras custaram 2 milhões de reais. As letras recortadas permitem que a luminosidade invada as quatro salas, com capacidade para vinte a oitenta lugares cada uma. "Queremos que a casa se transforme em um lugar de encontros e produção cultural, mantendo sua identidade histórica mas sem um olhar tribal", diz a diretora de teatro Joice Niskier, responsável pela variada programação, em parceria com os curadores Paulo Moura (música) e Halina Grynberg (conteúdo). "É um desafio."
O ambiente despojado e com traços contemporâneos acolherá debates variados: cabala, jazz, teatro, a política externa de Barack Obama, cinema e psicanálise – e tudo pode ser acompanhado no site do local. Entre uma aula e um filme, os frequentadores poderão renovar as energias com comidinhas kasher preparadas segundo as regras da Torá, o livro sagrado dos judeus, e servidas em uma cafeteria no térreo. Na primeira semana de funcionamento, a programação foi pensada como uma apresentação da casa à comunidade. Na agenda inicial, estão previstos uma mostra de curtas israelenses de animação, um bate-papo do escritor Moacyr Scliar com o desenhista Ziraldo e uma apresentação do flautista e saxofonista David Ganc com o violonista Mauro Perelman, na estreia da série Saideira Musical. As próximas atrações da programação são os cantores Jorge Mautner, Soraya Ravenle e Ithamara Koorax. Na semana seguinte, começam as aulas. O rabino Bonder fala sobre "Atos de misericórdia" e "A cabala da alegria", enquanto a atriz Clarice Niskier, que fez sucesso com a peça A Alma Imoral, ministra o curso "Teatro e transgressão". Cada aula custa em média 70 reais. Nas palestras, filmes e shows, a entrada é gratuita.
Na mesma rua, bem em frente ao Midrash, funciona há dez anos outro centro de tradições judaicas. Trata-se do Beit Lubavitch, ligado ao movimento homônimo que nasceu na Europa no século XVIII e revitalizou a ortodoxia do judaísmo ao enviar emissários a vários países para divulgar sua filosofia. A casa – "beit", em hebraico – está sob o comando do rabino nova-iorquino Yehoshua Goldman, radicado no Rio desde 1987 e conhecido pelos eventos culturais de peso que promove. Em agosto vai trazer pela terceira vez o maestro Zubin Mehta e a Orquestra Filarmônica de Israel para um concerto no teatro Oi Casa Grande cuja arrecadação será destinada para obras sociais. Com atividade das 7 às 23 horas, o prédio de sete andares e fachada austera abriga um centro de estudos com auditório para palestras e cursos. Tem ainda uma sinagoga com 400 lugares e uma biblioteca bilíngue que recebe diariamente mais de 200 estudiosos de todas as idades, interessados nos cursos sobre judaísmo e nas aulas de hebraico e filosofia. "Estamos abertos para qualquer um que tenha vontade de aprender", afirma Goldman.
O público diversificado que participa das atividades do Beit Lubavitch inclui o empresário Fernando Sigal, sócio da grife de moda masculina Reserva, e o médico Maurício Klajnderg, colegas em uma turma que estuda filosofia hassídica (vertente do ramo asquenazita, originária da Europa Central e Oriental), com aulas do rabino Meir Rosemberg. "Eu não entrava em sinagoga", conta Sigal. "Mas descobri como pode ser especial e interessante o mergulho nos estudos." |
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